sexta-feira, 30 de março de 2018

Bandas comentam se ocupam ou boicotam festivais com artistas acusados de nazismo no lineup


Essa Matéria não foi feita por esse blog, porém achei a mesma  muito interessante e  pertinente  quando a li no site Vice. Em nenhum momento o blog da chama do metal disponibilizou também  aqui a citada matéria, visando  criar polêmicas ou acessos e sim por tudo que vem acontecendo no cenário underground mundial em relação ao assunto abordado abaixo(recentemente o caso da banda Watain).

Confiram!!! então abaixo essa excelente matéria: 

Se o metal já foi considerado uma música de rebeldia e contra o chamado establishment, mesmo com suas diversas questões e possíveis contradições (também presentes em outros estilos, vale notar), nos últimos anos o gênero mais barulhento do rock passou a ver um número cada vez maior de artistas associados ao oposto disso. Ou seja, ao conservadorismo.

Seja pela saudação nazista de Phil Anselmo durante um evento em homenagem a Dimebag Darrell, pelo apoio de Tom Araya, do Slayer, ao presidente norte-americano Donald Trump, ou pelo aumento na popularidade de nomes como Nando Moura, que apoia publicamente o deputado Jair Bolsonaro, por exemplo, o fato é que passou a ser comum ver manchetes ligando o metal à direita.

Um dos casos que mais ganhou notoriedade nos últimos meses envolve o grupo norueguês de black metal Taake, que teve uma tour cancelada nos EUA após voltarem à tona acusações de racismo contra a banda por conta de um show na Alemanha em 2007, quando o vocalista Hoest se apresentou com uma suástica pintada no peito. Desde então, o músico emitiu diversos comunicados (veja aqui o mais recente) negando apoiar o nazismo e afirmando que, na verdade, fez isso apenas para chocar.

A recente confirmação de um show do Taake no Brasil, que acontecerá no tradicional festival de metal Setembro Negro, fez com que as discussões sobre o assunto ganhassem força nas redes sociais. Entramos em contato com a organização do evento, a Tumba Productions, e perguntamos se esperavam essa polêmica pelo anúncio do show dos noruegueses por aqui — vale notar que a banda já se apresentou outras vezes no país. 


“Claro que esperávamos uma certa polêmica com o anúncio da banda Taake no festival, mas primeiramente eu gostaria de deixar claro que NÃO apoio de forma alguma o nazismo ou qualquer forma de preconceito ou racismo, e também quero frisar que a Tumba compartilha desta mesma ideologia e que sempre fomos, somos e seremos totalmente dedicados exclusivamente ao metal e não nos envolvemos com política. Não me prendo a esse lance de política, sou ligado ao metal e, na minha opinião, algo que nunca deveria ser vinculado a essas mensagens é política. Eu sempre defendi a liberdade de expressão e a expressão artística livre, por isso não me desculpo e não me arrependo. Acho importante, acredito, entender o contexto em todas as obras de arte, literatura, teatro e música”, afirmou Edu Lane, da Tumba Productions, responsável pelo festival — confira a nota da produtora sobre o assunto na íntegra ao final da reportagem.

Por conta disso tudo, resolvemos expandir o debate sobre a questão. Para tanto, conversarmos com diversos artistas do metal/hardcore underground do Brasil para saber o que eles fariam se fossem convidados para tocar em um evento ou um festival ao lado de uma banda conservadora e/ou acusada de racismo, nazismo e outras formas de extremismo. Tocar ou não tocar?

Boka (Ratos de Porão)

Eu acho que se o evento em si não tem nada que faça apologia a ideias deste tipo e, no caso, é somente uma banda isolada que está envolvida em alguma polêmica, eu prefiro tocar. Pois caso me retire vou estar dando cada vez mais espaço para esse tipo de coisa. Pode-se até na hora do show manifestar-se sobre. Mesmo assim, na maioria das vezes as bandas falam com quem está organizando o show e quase sempre tiram esse tipo de banda.
 
Pedro Poney (Violator)

O Violator sempre teve uma política bastante explícita e estrita com relação a isso. Tanto que isso passou a constar no nosso documento de contratação: “O Violator não toca com banda nazista, fascista ou crente.” De uns tempos para cá, quando a coisa não é um cara com uma suástica no peito, mas algo como “o baterista daquela banda é um Bolsonarinho”, a nossa estratégia deixou de ser “Não vamos tocar por causa dessa banda”. Passou a ser muito mais um lance de chegar lá e tacar o horror, falar mal pra caralho do Bolsonaro e pautar o show a partir do que a gente acredita, dos nossos valores, e fazer do show uma grande festa que constranja essas personalidades autoritárias (risos). Essa também pode ser uma opção muito boa. Para mim, sempre foi importante se posicionar. Porque um show underground é sempre mais do que uma passarela de bandas, um mostruário. Por isso que a gente fala… Os shows do Violator tem mais falação do que nunca. Mas é porque a gente entende que aquele espaço é um espaço de produção coletiva, um da nossa criação, da nossa contracultura.

 
Caio Augusttus (Desalmado)
 
Se você for convidado para o ADOLF HITLER METAL FEST, o maior desfile de indumentárias nazistas e bandeiras dos confederados com discurso de merda por riff, evidentemente que não, afinal, você estaria morto ao atravessar o portão, seria uma escolha estúpida. Deveriam ser desenvolvidas táticas de batalha até. Mas olha que curioso: toquei num fest em 2016 que estavam Marduk e Taake juntos em Portugal — quando o papo é black metal, tenho sempre quatro pés atrás. Nesse mesmo fest estavam Doom, Violator, Desalmado, Incantation, Jucifer, Simbiose e tantos outros, eram extremos no mesmo cartaz, ideologicamente existem enormes distâncias (Nota: conversei sobre esse festival com o Poney, do Violator, e ele disse que não conhecia o Taake na época e que, na verdade, só ouviu falar sobre a banda agora por conta da entrevista para essa reportagem). Mas penso da seguinte forma, abrir mão de tocar num festival legal e levar uma mensagem contra tudo o que possivelmente eles apoiam? Nunca. Quem deve receber críticas, ser questionado, cobrado e sentir o fardo de deixar rastro de merdas supremacistas, são eles. O julgamento e ação deve partir majoritariamente do público que irá ao evento. 

Yasmin Amaral (Eskröta e Kultist)

Uma banda com uma postura conservadora não tem nada a ver com o underground, porém muita gente não vê desta forma e são essas pessoas que precisam ouvir o som de bandas que se posicionam contra o neo-nazismo, o fascismo, etc. Claro, não adianta tocar em um evento em que todas as bandas e o público são intolerantes, mas quando há uma banda em específico dentre um cast, eu creio que vale o esforço de conversar com o produtor e expor a situação. Caso ele não tire a banda do cast, ainda vale o esforço de subir no palco e mandar o recado: “Nós somos banda tal e não concordamos com as ideias da banda x”, porque não vamos conseguir atingir estas pessoas e seus ideais enquanto estivermos dentro de casa, ou tocando só para quem concorda com a gente. Temos que ocupar os espaços deixando clara a nossa posição.

Carlos Lopes (Dorsal Atlântica)

Jamais tocaria em um show ou festival com uma banda extremista, assim como não tocaria com uma banda sexista. Um dos motivos, se não o maior, que impede de me apresentar ao vivo é o fascismo. O deus metal não está acima de tudo. Isso é uma desculpa para mais alienação, para argumentação rasa de “não me importo com letras”. Nos anos 90, lancei um disco sobre um Cristo negro e favelado. Bandas de black metal me boicotaram com a desculpa que eu defendia negros. O que mostra como a sociedade brasileira é escravocrata e analfabeta funcional. A aproximação do metal com o extremismo é como o pastor que defende o assassinato de John Lennon e a destruição de templos de umbanda e candomblé. O brasileiro faz piada de coisa séria e desqualifica a reflexão. A não-brasilidade, a não-miscigenação são parte de uma desumanidade globalizada. Quando fundei a Dorsal Atlântica em 1981, nem em meus piores pesadelos eu imaginaria ver a que ponto baixo poderia chegar um movimento de contracultura. O metal nasceu do blues, música de negros escravos, explorados, e de homossexuais negros como Little Richard. E como é curioso ver festivais de metal boicotarem bandas cristãs, mas não boicotarem nazistas. O direito à opinião termina quando se fere a dignidade humana, seja ela de uma mulher, de um homossexual ou de um negro.

Victor Miranda (Surra e Basalt)

Eu acho que a banda tem que tocar sim, ainda mais em um caso como este, no qual o evento em si não tem posição ideológica nenhuma, é apenas um festival de música underground. Sei que algumas pessoas preferem ficar em casa ao invés de ter que dar de cara com um lixo humano nazista na vida real, mas o fato é que, se todo mundo ficar em casa, estaremos entregando de mão beijada um público enorme na mão dessa gente. Se a banda não for lá e expôr, com todas as palavras, seu posicionamento radicalmente contrário ao nazismo, racismo, etc, quem irá fazê-lo? Na minha concepção, o boicote não resolve nada nesse tipo de situação. É importante ocupar os espaços e estar lá colocando a cara a tapa e explicitando um ponto de vista antifascista. Quem gostar, ótimo, quem não gostar, foda-se.

[Nota do Editor: O repórter também é integrante do Basalt.]
 

James(Facada)


Podemos ter duas alternativas. Você como banda pode utilizar aquele espaço para poder alertar as pessoas que estão ali sobre as atitudes e ideologias propagadas tomando uma posição e dizendo os porquês de estar ali e que não concorda com as tais. Ou, se o incômodo for insustentável, o melhor é fazer um boicote e falar dos motivos de ser contrário às ideias ou condutas dos integrantes da banda que vai tocar no show proposto. Depende muito das circunstâncias e das pessoas que estão fazendo o show e que vão saber lidar com cada uma dessas atitudes. Já teve um caso em que o Facada, junto com outras bandas, ter que avisar ao produtor da conduta de um dos integrantes de uma banda que iríamos tocar ter atitudes fascistas e homofóbicas publicamente e ele teve que tirar a banda do cast do show. O que não dá é simplesmente calar-se e não se posicionar sobre. A cena do metal, que é onde muitas dessas bandas controversas estão, está muito reacionária, quando, por ser um estilo fincado no underground, era de se esperar ser o opositor a isso tudo. A premissa do underground como um todo é ser contrário a qualquer coisa que limite a liberdade, aos políticos, polícia, religião, mainstream e toda forma de manifestação que cerceie a sua forma de pensar livremente. Quando não se toma uma posição, você está do lado do opressor.

Jair Naves (Ludovic)

Antes mesmo de saber que havia uma controvérsia por aqui em torno dessa banda (Taake), eu tomei conhecimento do fato de que o rapper Talib Kweli recentemente cancelou um show numa casa noturna nos EUA que receberia depois esse mesmo grupo. Seus argumentos diziam algo como "não me sinto seguro trazendo minha família, minha equipe e meu público a um recinto que é simpático a esse tipo de manifestação". Respeito e admiro esse posicionamento. Falando por mim, no explosivo contexto do que é o Brasil em 2018, seria no mínimo desconfortável, para não dizer problemático e contraditório, subir no palco de um evento que também acolhe na sua escalação artistas com esse tipo de inclinação política. Não tocaria. 

Marcelo Fonseca (O Cúmplice e Basalt)

Tento não ter uma visão binária. Tento entender as coisas mais que preto e branco e o quanto a vida é complexa. Mas não sou e nem compactuo com fascistas. Mesmo com os ditos simpatizantes "de uma estética". Pensando que o underground tem gente de todo tipo, e o "inaceitável" pode pintar em um momento ou outro, então o melhor a se fazer é marcar posição. Acredito que o compromisso moral de toda banda, underground, que acredita numa postura a esquerda, progressista, emancipatória, é ocupar os espaços. Não em prol de uma convivência pacífica bundona, mas, se posicionando, mostrando de quem é este espaço e causando o máximo de desconforto para quem compactua com ideias genocidas. Para que não usufruam desse espaço. Não existe liberdade de expressão, quando ela é usada para cercear, perseguir, induzir o assassinato de outros. Mesmo que na estética. E já que exista quem não veja isso como problema, que a reflexão seja levada a eles, seja colocada para fora em forma de contestação. É fundamental levar o debate, o diálogo, e que a reflexão frouxa que deixa essas merdas passarem, amadureça.
 
Nota de Edu Lane, da Tumba Productions

Claro que esperávamos uma certa polêmica com o anúncio da banda Taake no festival, mas primeiramente eu gostaria de deixar claro que NÃO apoio de forma alguma o nazismo ou qualquer forma de preconceito ou racismo, e também quero frisar que a Tumba compartilha desta mesma ideologia e que sempre fomos, somos e seremos totalmente dedicados exclusivamente ao metal e não nos envolvemos com política. Não me prendo a esse lance de política, sou ligado ao metal e, na minha opinião, algo que nunca deveria ser vinculado a essas mensagens é política. Eu sempre defendi a liberdade de expressão e a expressão artística livre, por isso não me desculpo e não me arrependo. Acho importante, acredito, entender o contexto em todas as obras de arte, literatura, teatro e música.

Forneço esse breve histórico para ser transparente e para que estejam cientes das minhas próprias disposições e pensamentos gerais sobre a questão.

Na minha opinião, muitas das informações apresentadas sobre o Taake foram deliberadamente sem contexto e isso é muito complicado e problemático. Já assisti alguns shows do Taake na Europa, na América Latina e inclusive no Brasil, e pretendo sempre que puder assistir as apresentações deles. Diferente de algumas outras bandas (de black metal atualmente envolvidas em polêmicas), o Taake diversas vezes declarou não ser uma banda racista e o vocalista Hoest comentou (e ainda comenta) sobre o ocorrido há 11 anos:

"Eu (Hoest) expliquei claramente muitas vezes ao longo dos anos que eu usei uma suástica UMA vez em um concerto na Alemanha e isso não significa que eu apoio a ideologia nazista. Era tudo sobre fazer algo extremo para chocar, mas o tiro claramente saiu pela culatra. Isso já faz 11 anos e a banda até já se apresentou em Israel. De qualquer forma, incidentes semelhantes não aconteceram durante a longa carreira (de 25 anos) do Taake e obviamente não acontecerão novamente. Algumas pessoas parecem achar o caso imperdoável, insistindo em mal-entendidos intencionais. Então, de uma vez por todas, o Taake não é uma banda racista, nunca foi e nunca será. Ainda permanecer alegando isso é tão ridículo e infundado como são as tentativas de sabotar nossos shows antecipadamente." 

Considerações Finais do Editor(Site Vice) Luiz Mazetto

Percebo sim uma certa pressão, uma campanha orquestrada para ditar o que os fãs de metal (em especial o black metal) podem ou não ouvir e vivenciar ao vivo no palco. Percebo também que o black metal, por exemplo, vem recebendo cada vez mais atenção de pessoas que não tem relação (ou a minima noção) com as várias décadas de história desta cultura. Uma cultura que sempre teve como regra número um: não há moral a ser levada em consideração!

De fato, essa é uma discussão muito complexa, pois essas pessoas não percebem que é muito complicado tentar moralizar uma forma de arte, e pior, essas pessoas estão muito mais preocupadas com política e acham que estão encontrando coisas antagônicas à sua cosmovisão, e tenho certeza que estão. Infelizmente as pessoas sempre encontram algo aqui ou ali que pode lhes chatear e de certa forma tudo bem isso também. O que é cansativo é quando essas pessoas simplesmente não têm ideia sobre o que é realmente tudo isso, e elas insistem em continuar olhando pelo ângulo errado. Eu tenho certeza que temos questões políticas e sociais muito mais relevantes e importantes a serem tratadas do que uma apresentação da banda Taake.

Mesmo porque, ser verdadeiramente uma banda de black metal e não enfrentar a oposição dessas pessoas que estão muito preocupadas com a manutenção dos padrões éticos e morais ocidentais não é natural...se não há essa oposição realmente há algo de muito errado.

Como sempre, estamos totalmente à disposição para quaisquer esclarecimentos que se façam necessários. Obrigado.

Fonte: VICE
Autor: Luiz Mazetto