segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Resenha Arkona - Yav

 
Você gosta de história? Quando o assunto é a cultura de outros países, você acha que tem certo domínio sobre seus folclores? Agrada-lhe o estudo antropológico social dos antepassados indo-europeus? E mais precisamente, você aprecia o paganismo contemporâneo eslavo? Não, essas perguntas não são retóricas. Ou não deveriam ser. Pois do lado leste da Europa – mais precisamente da Russia – o Arkona presenteia-nos com um novo álbum: para falar de história, novamente. Uma pequena recapitulada na concepção da banda nos leva até sua fonte, o mais puro “Pagan Metal” oriundo da Rússia, ou seja, eslavo! É claro que a banda poderia dissertar em suas canções sobre a cultura nórdica, celta, semita ou germânica; isso não seria problema algum. Mas graças ao título de historiadora que a vocalista Maria “Masha Scream” Arkhipova defende, suas letras são fortemente carregadas pelo mais puro simbolismo da cultura originária de seu país. Nada mais sensato do que a banda saudar sua nação com o metal – e o folclore russo – aliado à mitologia eslava. Em “Yav”, a banda não foge a seus princípios (ainda bem, diga-se de passagem), presenteando os fãs com a mesma concepção encontrada em seus álbuns anteriores. Mas, se você faltou às aulas de história aplicadas às sociedades antigas do leste europeu, talvez seja melhor ouvir “Yav” apenas apreciando seu som. O que já é excelente. A mensagem que a banda tenta passar provavelmente deve fazer mais sentido a seu próprio povo, já que as músicas aqui presentes são todas cantadas na língua originária russa. Dá-lhe Google Tradutor!.  Uma rápida pesquisa na Internet nos mostra que o termo “Yav” refere-se à mitologia eslava. Yav, Prav e Nav são três mundos descritos no “Livro de Veles” (sic). Os três, quando combinados, colidem a Triglav, o governante do Universo segundo o paganismo eslavo. Mas o que diabos é “Yav”, você pergunta? Ora, pequeno neo-pagão comedor de ovos de Páscoa, Yav é o mundo material em que nos encontramos agora. Toda a extensão de terra por onde pisamos. E fica claro que este é o nosso mundo, assim como também o era para os antigos habitantes da Rússia. A realidade. E seguindo este poético conceito, o Arkona surpreende com seu novo álbum. A começar pela arte da capa, ilustrada por Gyula Havancsák, já podemos ver um certo ar sombrio, por assim dizer. Talvez a palavra certa seja maturidade. Já que o som da banda sofreu uma evolução, para melhor. Ainda na capa, fica evidente o conceito de Yav como nosso mundo. Você é livre para tirar suas próprias conclusões, guerreiro pagão, mas é evidente a retratação da Terra no artwork. Do mundo real – e muito possivelmente de nosso futuro nele. Esta capa me intriga com sua bela arte. Já de cara parece-me uma das melhores artes do Arkona além de se fazer visível o grau de evolução em que a banda chegou. O resto da evolução fica confirmado no instante em que você aperta “play” em seu aparelho de som (nada de dar play no Youtube, astuto rufião!). A qualidade sonora e principalmente a técnica dos integrantes do Arkona está mais apurada, a banda dá mais liberdade a outras influências sendo não raras às vezes em que o vocal de Masha flerta com o Black Metal. Um show a parte da vocalista historiadora. Os elementos “folk”, do qual a banda já é famosa, não se acanham neste novo trabalho; ainda contamos com a presença de músicos convidados em “Yav”, como Olli Vänskä (Turisas) nos violinos; além dos instrumentos de sopro étnicos sob o comando de Vladimir “Volk” Reshetnikov. Neste último, fica bem evidente seu uso, embora Volk divida muito da atenção do ouvinte com riffs poderosos do mais puro heavy metal e uma bateria frenética, que entoa o chamado à guerra – ou a causas mais realistas... mas não menos perigosas. Já que estamos falando das canções de “Yav”, durante todo o play o que se entende são idéias muito bem trabalhadas e planejadas com antecedência. Um forte ponto positivo para o Arkona e sua concepção neste novo full-length. A banda soube encaixar perfeitamente novas idéias, conceitos um tanto quanto modernos, mas sem abrir mão de seu legado pagão. Canções profundas, que querem contar ao ouvinte o que está acontecendo em NOSSA Yav. Para onde ruma este povo e mais: o que será de nossa terra no futuro. Um ambiente mais escuro pode ser percebido neste álbum, mas nem tente ouvi-lo só uma vez. “Yav” é mais um daqueles intrigantes quebra-cabeças que precisam ser digeridos com tempo, sabendo dosar suas quantidades, sem fazer o ouvinte se perder no meio da sinuosa estrada de chão batido que é a mitologia eslava. Um ótimo lançamento da Napalm Records, que brindará os fãs da banda com um pouco mais do rico folclore russo. Felizmente Masha tem total controle sobre suas ideias e não faz de “Yav” mais um lançamento clichê sobre épicas batalhas em defesa de seu povo oprimido ou festeiro. A banda mostra que é capaz de ir além, convidando o ouvinte a mergulhar no seu poço de águas gélidas do passado. Tentando comprovar (e acertando em cheio!) que é estudando nosso passado que podemos planejar o futuro. Se mergulhas na água gelada, sabes que ela não é tão límpida quanto parece; e isto é o resultado de nossas próprias ações.


Mais um lançamento para falar de história, de fato. Entretanto, este novo trabalho dos russos neo-pagãos vai muito além do passado de seu povo. “Yav” é um ensaio para nossas próprias filosofias de vida. Um joguete de ações e reações. Um flerte, enfim, entre passado e presente de nossa história.
 
  
Formação:
Masha "Scream" - Voice
Sergei "Lazar" - Guitar
Ruslan "Kniaz" - Bass
Andrey Ischenko - Drums
Vladimir "Volk" - Wind Ethnic Instruments
 
 
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Autor da Resenha: Guilherme Thielen