domingo, 12 de agosto de 2018

Resenha Torture Squad - Esquadrão de Tortura

 
Eu sempre fui amante da História. Não só as histórias de ficção (outrora denominadas “estórias”, agora vocábulo em desuso), mas também dos fatos do passado da humanidade que levou-nos ao mundo que temos hoje. História é matéria na escola não por acaso. Estudar e pesquisar o passado de uma nação, de um ser, de uma causa e dos meios para um fim é um trabalho árduo, mas deveria ser feito por todos. Foi ainda na escola que me apaixonei pela História. Primeiro, a Segunda Grande Guerra, onde todas as informações que eu obtinha sobre o assunto não pareciam-me suficiente. Então descobri as bandas de heavy metal que davam enorme ênfase a letras sobre o tema ou simplesmente menções a outros fatores históricos. Se você acha que Iron Maiden é a única banda a fazer isso, está redondamente enganado. Quando o assunto era a história de meu país, sempre gostei de pesquisar o Regime Militar e a época da Ditadura Brasileira (1964 a 1985), primeiramente por não ter vivido esta época e segundo, mas não menos importante, por um dia achar que o tema daria uma bela canção de thrash ou death metal. Inimigos de Estado, sanções, banimentos, resistências ao poder e... torturas a presos políticos! Aquilo era incrível para minha cabeça de 15-16 anos. Felizmente, outra banda brasileira nos presenteou com a mesma concepção que eu tive. Mas aqui, um álbum completo, lançado em uma data muito conveniente à ideologia: 15 de novembro. Esquadrão de Tortura é uma viagem no tempo ao período do Regime Militar brasileiro. Constituído de forma conceitual, primeiro trabalho desta categoria do Torture Squad, no decorrer das 12 faixas a banda mostra de ordem cronológica um dos períodos mais obscuros da história do Brasil. O álbum passeia pelo primeiro golpe de estado indo até as revoluções, sem deixar de lado estrelas e as lembranças mais marcantes deste período. A banda abre seus trabalhos sem rodeios ou entoações. “No Escape from Hell” é rápida e mostra bem a pegada thrash que a banda quer contar ao seu ouvinte sobre a história do Brasil. Ótima canção e o instrumental já acena ao ouvinte o que ele poderá esperar pelo resto do álbum. Impossível não lembrar os trabalhos recentes do Sodom. Desde 2012 a banda conta com os vocais de André Evaristo (guitarra) e Castor (baixo), já que o posto antes ocupado por Vitor Rodrigues fora deixado de lado. Uma boa estratégia da banda dividir os vocais entre seus membros, sem a necessidade de contratar um novo vocalista. Temos aqui um “thrash trio” de competência (mais lembranças ao Sodom) e os vocais de André em boa parte do álbum assemelham-se aos de Mille Petrozza, do Kreator. Uma ótima constituição vocal!. O passeio ao passado brasileiro continua com a puxada do gatilho do exército e a tomada do poder com “Pull the trigger” e as primeiras resistências com “Pátria Livre”, esta a única canção do álbum cantada inteiramente em português. Haveria espaço para mais faixas em nossa língua nacional. A sequencia do álbum é pedrada após pedrada, lembranças claras ao thrash metal alemão e ao chamado “war metal”, popular nos idos dos anos 80 por aqui. “Wardance” é o ponto técnico do álbum, onde a banda mostra sua evolução elevada. E que composição linda! “Architecture of Pain” e sua introdução levam o ouvinte de volta à década de sessenta, ouvindo as notícias do rádio sobre a criação do primeiro Ato Institucional. Ouvidos desatentos – ou em desacordo com o estilo – poderiam dizer que a banda soa repetida da quinta faixa adiante, mas as letras carregadas da história do Brasil valem o registro do álbum. “Never Surrender”, sexta faixa do álbum, tem momentos maravilhosos de interlúdios em que André grita o nome (ou as siglas) das primeiras agremiações partidárias opostas à Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Vejam quantos dos partidos políticos que conhecemos hoje eram chamados no passado! Pedradas e a progressão da ditadura militar seguem por “In the Slaughterhouse” (técnica tremenda da velha cozinha da banda, presença forte do baterista Amilcar Christófaro), “Conspiracy of Silence” e “Nothing to Declare”. Mas um álbum conceitual cravado sobre um fato histórico tem um final que é previsto por todos. Um final onde já sabemos o que acontece em seu desfecho. Com Esquadrão de Tortura não é diferente. “Fear to the World” e a faixa bônus “A Soul in Hell” terminam, ainda que de forma morna, a história já conhecida do ouvinte. Não há floreios ou uma enorme mensagem filosófica sobre o passado brasileiro ao término do álbum, mas mesmo assim, a banda mostra que, após este período conturbado do Brasil, o que levantou-se foi uma Democracia um tanto quanto falha. Há uma curiosa ligação, evidenciando isso, com a última faixa e a primeira canção. Como se o álbum pedisse para você ouvi-lo de novo ao término de “A Soul in Hell” e repetindo seu ciclo com “No Escape from Hell”. Um círculo vicioso que tenta dizer o que se passou antes, também acontece agora.


De menções aos Atos Institucionais, passando por exclamações de liberdade até culminar no fechamento do livro negro da História do Brasil, Esquadrão de Tortura não irá te ajudar a passar de ano na escola (obrigado Iron Maiden! Mas isso fica para outra resenha...). Entretanto, é impossível negar a boa carga histórica presente neste primeiro registro conceitual do agora “Power trio” paulistano. A banda fez uma excelente pesquisa sobre a época, um trabalho que poucos teriam tanto esmero. Obviamente o álbum é recomendado a você também que não dá a mínima para o passado de seu país. O que você ouvirá aqui é um competente trabalho produzido inteiramente no Brasil e que não nega fogo aos grandes da Europa ou América do Norte. Mas se você acha válida a ação da banda em recontar o Regime Militar Brasileiro, adquira o álbum original. O encarte já vale por metade do preço imposto.
Afinal de contas, quem não sabe seu passado não pode reclamar de seu presente.


 Formação:
Amilcar Christófaro - Bateria
André Evaristo - Guitarra/Vocal
Castor - Baixo
 
  
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Autor da Resenha: Guilherme Thielen