sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Resenha Fleshgod Apocalypse - Labryrinth


Eu realmente adoro álbuns conceituais. Gosto da sensação um tanto quanto indescritível de perceber a dedicação e muitas vezes o empenho de uma banda, produtor ou gravadora em lançar um trabalho conceitual. Algumas vezes estes “concepts” acabam passando despercebidos pela grande maioria dos fãs; outras, seus conceitos não são claros ou incertos que gera uma dúvida sobre o total trabalho feito. Um álbum conceitual pode dissertar sobre os mais variados trabalhos - com faixas que se ligam entre si ou não – ou um mesmo assunto explorado poeticamente no decorrer das canções. Se formos analisar, o Prog Metal ainda tem o maior número de bandas com trabalhos dedicados a uma ideia conceitual. Mas isso não faz exclusividade do gênero. Power Metal, Thrash, Folk e também o Death Metal presenteiam, não rara as vezes, seus fãs com trabalhos conceituais. Assim como o Technical Death Metal! Gênero muito apreciado na Europa e que começou a ganhar maior notoriedade no Brasil há poucos anos. Os italianos do Fleshgod Apocalypse não fogem à regra do chamado “som brutal e técnico”. Viradas inesperadas, batidas no contratempo, vocais fortes e guturais variando com “clean vocals”, entretanto, no terceiro álbum dos caras, lançado ainda no ano passado, o Fleshgod Apocalypse presenteou seus fãs com algo a mais: um álbum conceitual muito bem produzido. O tema? Algo que me agrada bastante “O Labirinto do Rei Minos”. O CD começa com “Kingborn” e o barulho do mar quebrando-se à praia variando com uma respiração ofegante. Depois o som ambiente dá lugar ao abrir de pesadas portas, como se pudéssemos perceber alguém adentrando os portões do Labirinto do Rei. O agito do mar dá lugar a um silêncio tenebroso conforme as portas do enorme aposento se fecham. A respiração cansada está ali e ela agora é acompanhada por passos nítidos do caminhar no Labirinto. Um coro orquestral preenche o aposento conforme o som da respiração agora parece descontrolado, perdido em Knossos. As guitarras entram decretando o final da introdução, mas “Kingborn” estende-se por mais quatro minutos. Que ótimo início de álbum! Um vocal lírico, como o de antigas operas ainda acompanha a banda nos interlúdios.

Uma pena o ponto alto do álbum ser justamente a primeira música. Ponto alto musicalmente falando, pois conforme passamos pelas próximas músicas, o conceito do álbum começa a mudar (não confundir com se perder, com o perdão do trocadilho, em um labirinto). A segunda faixa começa sem o ouvinte perceber e “Minotaur (the Wrath of Poseidon)” é uma ode ao Labirinto em Knossos. Os teclados e a orquestração de Francesco Ferrini são um prato cheio ao som, e a letra é magnífica. Você pode abandonar as paredes evitando a besta? O destaque aqui fica para a letra da canção, mas vale ouvi-la mais de uma vez para sacar sua profundidade. “Elegy” é a terceira faixa do álbum e só agrega peso a suas orelhas. A quebra de ritmo aqui é interessante e mais uma vez a orquestração é um ponto positivo. Dada, talvez, a influencia ao nacionalismo da banda, há alguns flertes com peças clássicas da música erudita italiana aqui e os rápidos violoncelos deixam o ouvinte na mesma frustração de Dédalo no Labirinto do Rei Minos. Se você esperava por um descanso, esqueça!
 
 Ouça aqui:
Fleshgod Apocalypse - Labyrinth 

“Towards the Sun” é a quarta faixa e aqui a banda parece perder um pouco seu rumo, fazendo um som muito bem classificado como “mais do mesmo”. A canção não agrada ao ouvinte já acostumado com a temática e nem mesmo os vocais limpos do guitarrista Tommaso Riccardi salvam-na. Muito embora um embolo musical começa a ser percebido, há aqui algumas imposições a uma nova ideia do conceito deste álbum, que continua na próxima canção “Warpledge”. A música tem um andamento de uma opereta ou até mesmo uma sonata, muito bem equalizada com o peso do Death Metal dos italianos. Mesmo assim, se você espera novidades ou surpresas, só o que encontrará é uma parede sem saída do Labirinto. E é ai que o conceito do álbum, entretanto, surpreende. Em “Warpledge”, a banda começa a cantar não somente sobre fatos da Grécia Antiga, mas há aqui uma forte alusão do uso de um “labirinto” a que estamos fadados a percorrer nós mesmos, nos dias de hoje, por toda a nossa existência. Produção impecável. Mixagem e equalização perfeitas. “Pathfinder” é a próxima e seu começo me fez lembrar alguns bons álbuns do passado de ouro do Power Metal. Sim, do Power Metal. Logo a canção cadencia e voltamos ao som típico do Fleshgod Apocalypse, mas as guitarras levam o destaque da faixa que fica evidente em querer mostrar como (ou quem) acha o seu caminho correto pelo labirinto. Apenas uma ótima introdução para “The Fall of Asterion”, sétima faixa do trabalho. E aqui a banda faz questão de voltar a passado. Precisei pesquisar novamente quem era Asterion e lembrar de sua ligação com o Labirinto do Rei Minos. A canção é um tech death de mão cheia, a bateria é um destaque positivo, numa interposição de ritmos e variações para poucos tentarem tocar igual. As guitarras e a harmonia com os arranjos orquestrais também são destaque que agregados aos vocais em um tom de desespero enriquecem a composição. Menos peso aqui (se é que podemos dizer assim), mas não menos Metal. Continuamos com mais uma curta faixa, “Prologue”, e aqui a banda parece finalmente fazer um descanso para respirar. Já se foram mais de 30 minutos só castigando os ouvidos alheios com um excelente som brutal até finalmente termos uma passagem em violão solo aqui. Ótima composição e enfim, uma novidade ao quesito musical do álbum. Se há um prólogo, geralmente há um epilogo. Aqui não é diferente com a nona faixa do álbum “Epilogue”. E os italianos apresentam ótimas melodias para se encaixar ao seu som. Os vocais líricos voltam aqui, casando-se a uma mistura aprovada de Technical Death Metal com Symphonic Gothic Metal. Quantos sub-gêneros! O som compensa. Aconselho, inclusive, a ouvir “Epilogue” antes de qualquer outra faixa do play. Aqui há o resumo de tudo que você encontrará em “Labyrinth”. Fina obra de arte. Ainda sem acharmos a saída para nossos conflitos diários e provações, a banda convida o ouvinte a continuar o trajeto pelo labirinto. Temos “Under Black Sails” e a imersão a tempos de heróis da Grécia Antiga está de volta. Mais uma boa canção, que é fiel à proposta da banda. Permanece de pé a metáfora de associar o Labirinto do Minotauro com um reflexo de nós mesmos aqui também. A banda sabe usar na hora certa o peso de suas guitarras em “Under Black Sails”, mas o destaque vai para a cozinha da banda aqui, frenéticos no “double-beat”. Finalmente temos a canção homônima e última faixa do álbum “Labyrinth”. Uma “outro” a altura da “intro” do CD. O piano comanda todo o percurso e é impossível não associar a ideia de mundos diferentes e problemas iguais à metáfora do Labirinto do passado (ou ainda ao conto da Caverna de Platão). O “gran finale” digno de um concerto clássico. Uma pena a banda só ter lembrado disso na última faixa, apresentando um certo embolo musical nas canções passadas. Mesmo assim, “Labyrinth” encerra de forma bem convincente todo o play histórico da banda. Dado a ideia de álbum conceitual, é incrível analisar trabalhos tão diversos que seguem os mesmos conceitos e em “Labyrinth” os italianos do Fleshgod Apocalypse não fazem feio. A banda fez um excelente trabalho de pesquisa deixando clara a imersão na história da Grécia Antiga neste lançamento de 2013 (fazer-me pesquisar quem era Asterion?! Caramba!). Infelizmente, o resultado final é muito repetitivo às primeiras audições. Mas se você procura um álbum conceitual dentro do gênero Technical Death Metal, aqui há um excelente candidato. E se você tiver interesse, adquira ainda a versão física de “Labyrinth”. A arte presente em todo o encarte é como a cereja do bolo ao conceito apresentado por Tommaso Riccardi e os demais italianos. Ouça “Labryrinth” e veja quantas vezes você precisa encontrar forças para achar a luz no fim do túnel. A escada que lhe tira do buraco. A saída, enfim, de seu próprio labirinto.
 
 
Formação:
Francesco Paoli: Vocals, Guitars, Drums (studio)
Paolo Rossi: Vocals, Bass
Francesco Ferrini: Piano, Orchestrations

Ao Vivo:
Veronica Bordacchini: Soprano vocals
Fabio Bartoletti: Lead guitar
David Folchitto: Drums
  
Contato:
mail@nuclearblastusa.com (NA) / info@nuclearblast.de (EU)
 
Mais Informações: 
 
 
 
 
 
 
Autor da Resenha: Guilherme Rocha Thielen